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  • Maria Inês Paes Ferreira

Reinos encantados da Cachoeira da Amorosa - um olhar cosmológico

Situada entre os municípios de Conceição de Macabu[1], Trajano de Moraes e Santa Maria Madalena, no estado do Rio de Janeiro, a Amorosa é uma região de rara beleza, que abriga importantes remanescentes da Mata Atlântica, no Corredor do Muriqui. Dotado de importância histórico-cultural ímpar, o território da Amorosa testemunhou a busca pelo amor e pela liberdade desde os tempos coloniais e imperiais.

Num tempo envolto em magia e mistério, quando o homem branco ainda não havia adentrado os sertões e as serras fluminenses, os ciclos de plantar e de colher eram contados pelo aparecer das sete irmãs Eixu[2] no firmamento criado por Tupã. Sob o índigo dos céus, após o sono de Coaraci, dois belos jovens índios sacurus costumavam correr e brincar pelas florestas, percorrendo com alegria os caminhos iluminados por Jaci. Amigo do Curupira desde os tempos de menino, pois apesar de ser um exímio caçador, honrava e respeitava os animais e os seres da floresta, ele pertencia à tribo do córrego Guará[3]. Ela, habilidosa na cestaria de taboa, habitava as partes baixas e embrejadas, após o encontro do Córrego Guará

com os rios “maior”[4] e “grande”[5] que lhe sucediam na mata. Cresceram juntos assim, sua amizade se fortalecendo até transformar-se num amor profundo...esperança de união entre as tribos de cima e de baixo, para resistir à ameaça branca, que já se fazia presente nas praias e restingas, matando e dizimando os bravos goitacás.

Anhangá invejava o amor dos dois. E invejava o jovem por sua força e coragem, sempre alardeadas pelo Curupira quando se encontravam na mata para pitar e conversar sobre os brancos que se achegavam cada vez mais perto. Aproximava-se o dia da união dos jovens sacurus, acertada pelos pajés das duas tribos para a próxima chegada de Jaci quando tomado por raiva, inveja e ciúme, Anhangá se transformou em onça e foi confrontar o belo índio quando este caçava caititus para levar e moquear para a festa próxima. Dotado de uma força descomunal, o jovem feriu a onça no coração e pensando tê-la golpeado mortalmente adentrou a mata para continuar sua caçada. Mas Anhangá não morreu...Anhangá não morre!!! Ele vagou floresta abaixo até encontrar os brancos...com suas batinas pretas e suas cruzes...e fez com eles uma aliança sinistra: em troca da vida dos sacurus que, amansados e subjugados passariam ao domínio branco, ele queria a humilhação da índia...como os brancos faziam com a floresta: que ela fosse dominada e morta! Do índio ele mesmo iria se encarregar. E assim foi feita a aliança...

No dia do casamento, aproveitando-se da algazarra dos convidados que distraía os pajés, novamente travestido em onça, Anhangá apareceu no local onde aconteceria a cerimônia. Atrás das árvores jaziam os brancos escondidos, de tocaia. Quando a onça atacou a noiva, imediatamente o moço veio em sua defesa. Mas não contava com o fogo que penetrou-lhe a carne, vindo de algum lugar da mata...de uma arma que ali nenhum índio ainda conhecia. Em meio ao ataque surpresa dos brancos, dominando a todos os presentes, Anhangá se revelou por um momento, em sua maléfica magnificência, para quase imediatamente se transformar numa potente tromba d’agua, que arrastou os noivos para as corredeiras do rio “grande”.

Os brancos saídos dos seus esconderijos prendiam os convidados, que estavam aterrorizados pelos estampidos das armas de fogo, enquanto o jovem ferido se afogava, na luta desigual com Anhangá. Ele ainda pode ver quando muitas mãos brancas penetraram na água e resgataram a moça. Mas longe de salvá-la, aqueles brancos vestidos de negro a violaram e a prenderam, ferida entre as pedras que ficavam no limite do rio “maior” com o rio “grande”, lavando-se dos seus crimes naquelas águas.

Deixando a terra arrasada, foram-se os brancos embora, levando os sacurus cativos para sua colocação, por eles denominada “missão”. E Anhangá, satisfeito por ter finalmente derrotado o jovem índio se afastou do rio, fingindo não ouvir os pedidos de socorro da jovem noiva. Sem ajuda e tendo perdido o seu amor para sempre, a índia espremida entre as pedras do rio “grande”, chorou...e chorou...e chorou...até que vieram as iaras...e tomaram seu corpo já quase sem vida...

Enquanto morria, ela ainda chorava por seu amado...mas num último sopro de forças, nos braços das mulheres das águas que a levavam para o reino encantado das águas claras, ela ainda teve forças para dizer suas últimas palavras – e conjurar a maldição: “todo homem branco que aqui vier se banhar morrerá afogado em minhas lágrimas”. E as lágrimas da bela sacuru se transformaram na Cachoeira da Amorosa. Acima da cachoeira, escavada pelas águas, uma pedra em formato de coração é dita como testemunha desse amor, nunca consumado na matéria. Desde a morte da Amorosa, Eixu visitou o firmamento sobre as matas muitas vezes, e incontáveis relatos sobre a índia foram contados e recontados, em diferentes versões[6]. Há quem atribua sua morte à disputa entre as tribos sacuru e goitacá, estimulada por brancos dominadores em conluio com tamoios iludidos e pretos escravizados. Contudo, um fio condutor une todas essas lendas: o xapiri[7] da Amorosa protege a cachoeira que lhe dá o nome da “devastação branca”.

[1] Trata-se do município hegemônico da região da Amorosa, em termos geográficos, por ocupar 70% da área territorial; em termos culturais, pois todas as lendas e histórias estão inseridas em seu rol histórico e cultural e ausentes nos demais municípios; em termos estratégicos, pois a única estrada de acesso é a Estrada Municipal da Amorosa, pertencente a Conceição de Macabu; e sociais, pois a maioria dos proprietários rurais e dos movimentos populares e oficiais de sua proteção tem bases em Macabu. [2] As imprecisões dos relatos históricos associados à região da bacia do rio Macabu impossibilitam-nos precisar a etnia das tribos sacurus (ou saruçus ou suruçus) que habitavam a região da cachoeira da Amorosa. Assim, adotamos aqui a denominação dada pelos Tupi-Guaranis à constelação das Pleiades, também conhecida como sete irmãs, conforme obras de 2016 de Dhiego Castro Campos, “A cosmologia indígena brasileira: uma troca enriquecedora para o homem tropical” (disponível em <https://www.ufjf.br/bach/files/2016/10/DHIEGO-CASTRO-CAMPOS.pdf>). Na região Norte-fluminense, coexistiam diversas etnias e nações, como a tupi (coroados, tamoios e tua rua) e a jê (goitacá), sendo comum em documentos dos tempos coloniais o emprego da denominação genérica “guarulhos”, que segundo Arthur Soffiati na página 30 do texto “Paisagem e povos originais de Conceição de Macabu” (em: Gomes, M. A. (org.). Conceição de Macabu: história das origens até a segunda emancipação. Macaé: AsM Editora, 2019, 328 p.) foi usada para identificar tanto os índios sacurus, como os índios coroados. [3] Guará - termo indígena para “vermelho”. O Córrego Vermelho é o principal tributário do rio Carukango. [4] Rio Carukango. [5] Rio Macabu. [6] GOMES, M. A. ABC de Macabu: Dicionário dos Topônimos, Histórias e Curiosidades de Conceição de Macabu, Volume I. Conceição de Macabu: Gráfica e Editora Macuco, 2003, 186 p. [7] Termo indígena que designa espíritos protetores associados à Natureza. Em: KOPENAWAS, D.; ALBERT, B. A queda do Céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, 729 p.

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