Buscar
  • Maria Inês Paes Ferreira

Carukango - verdade ou mito?

O domínio dos brancos na região não se limitou aos massacres dos indígenas. Em sua ânsia de poder eles continuavam, rasgando os antigos caminhos dos índios, abrindo trilhas, construindo bertiogas, portos e canais para escoar o café das serras para o litoral, cruzando rios, brejos, lagoas e restingas, até chegar no Porto de Macahé (Macaé) e de lá para a corte, no Rio de Janeiro, de onde o ouro vermelho-marrom era exportado para o Velho Mundo. Os índios também não desistiram...muitos voltaram para seus sertões, fugindo ou abandonando a Missão, e se embrenhando novamente na floresta do Córrego Vermelho. O café trouxe a estrada...integrando trilhas serranas de Cantagalo à Lagoa Feia...depois veio a cana-de-açúcar, o ouro branco...e também veio outro povo...de pele preta...trazido do além-mar...também subjugado...mas como os índios, buscando resistir.

Na resistência e na luta, vermelhos e pretos fizeram das florestas da região do Córrego Vermelho seu refúgio. E foi lá que se formou a resistência, protegida dos brancos pela maldição da índia Amorosa, nasceu e cresceu na mata uma colocação de escravos fugidos do jugo dos fazendeiros, liderados por Antônio Moçambique, conhecido na região como Carukango. Segundo Gomes (2019), um episódio de troca de tiros envolvendo Carukango, líder do quilombo de mesmo nome, e o fazendeiro Domingos José Gomes Pinto, era parte de um Auto de Devassa, em 1831, quando a localidade ainda pertencia à Vila de Macaé. Para além do registrado pelo cartório, na memória dos antigos, passada de boca em boca em Conceição de Macabu, o episódio da morte do “feiticeiro Carukango” ficou registrado como um confronto épico. Usando uma batina e portando uma grande cruz em seu peito, Carukango teria liderado seu grupo quilombola contra um destacamento branco que contava com reforços da corte. Ao ver seu povo acuado, Carukango colocou-se à frente do grupo, e num gesto confundido como sua rendição, tirou de baixo da batina uma arma que trazia escondida e atirou em Domingos, tendo sido fuzilado em seguida...e parte do grupo quilombola massacrada no episódio, enquanto alguns, recapturados, foram devolvidos aos seus donos...

Assim conta a estória, mais uma vez envolta em incertezas e mistérios que povoam o imaginário local e inspiram aventureiros na difícil tarefa de historiar...chegaram a inventar que Carukango teria sido avô de José do Patrocínio, pois sua companheira grávida teria sido presa e vendida à corte após o massacre – o que só mostra o quão é interessante a história desse líder negro, ou jamais tê-lo-iam associado ao Tigre da Abolição, mesmo que em forma de lenda. Algumas ferramentas cuja origem pode ter sido o quilombo foram encontradas na região da Amorosa, mas até hoje o local do assentamento segue ignorado, envolto nas brumas do tempo, coberto por densas florestas que 190 anos depois devem ter consumido os vestígios materiais do assentamento quilombola.

Mas o nome de Carukango está eternizado no “rio maior” que recebe as águas do Córrego Vermelho e proporcionam a visitantes e turistas poços refrescantes que precedem a Cachoeira da Amorosa, uma lindíssima queda d´água com cerca de 15 m de altura, que se constitui no principal atrativo natura do município de Conceição de Macabu. As águas do Carukango encontram-se com a do rio Macabu (o rio “grande”), logo após o poço da cachoeira da Amorosa. E assim como os povos originários que retornaram à região na diáspora indígena e

os escravos fugidos lá se estabeleceram para lutar por sua liberdade, as águas e a floresta da bacia do Carukango resistem, apesar dos homens que, tal como aqueles brancos do passado, tentam ainda hoje dominá-las e explorá-las.

7 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo